segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.



>>Esgotados os “cantores”, quer dizer, o material que tinha em mãos e sem poder baixar músicas para reproduzir no programa, ordem da direção, busquei outras alternativas.

>>Primeiro, fiz uma lista com vários nomes de músicos da nossa querida MPB, cujos materiais poderiam estar no acervo. E ai começou a loucura. Encontrei muitos dos nomes que havia escrito e outros mais. No entanto, os álbuns dos quais dispunha ou estavam em condições impróprias para reprodução em rádio, se é que você me entende, ou eram insuficientes para que eu pudesse desenvolver um texto suficientemente bom ao meu ver. Eu gostava de fazer uma espécie de retrospectiva que envolvesse a vida e a carreira do artista em questão. Lembrava da época em que estava me preparando para o vestibular. Um dos fatos que mais me deu prazer ao estudar literatura foi conhecer um pouco mais da vida do autor, saber de curiosidades, de acontecimentos marcantes e, é claro, poder relacioná-los com o período histórico em que aquela peça literária fora escrita. Esse conhecimento era para mim uma espécie de chave que me permitia “entrar” na mente do escritor e descobrir (imaginar) o que o teria levado a escrever tais orações. Pode parecer loucura, mas, de certa forma, gostava de escrever programas com o intuito de provocar tal sensação no ouvinte.

>>Sem muito sucesso, resolvi mudar de estratégia. Depois de um tempinho, uma pergunta veio a minha mente: por que não produzir um programa a partir de um álbum? Solucionado um impasse, parti em busca da solução de outro: e qual seria este álbum? Bom, pensei cá com meus botões, como se eu os tivesse, teria que ser um álbum significativo para a história da música brasileira. Não queria musicas boas apenas, queria musicas de qualidade, com conteúdo e que apresentassem algo inédito, inovador. Foi então, que “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius” me veio à cabeça. Eu já havia feito programas a cerca desses grandes nomes da MPB, nos quais fiz breves citações a respeito da curta, mas produtiva, parceria entre os dois músicos. Ainda assim, senti que a exploração dessas produções não foi suficiente e vi nesse último programa de Dezembro uma oportunidade.

>>A parceria entre Vinícius de Moraes e Baden Powell começou em 1962, quando violonista, que tocava na boate Arpège, em Copacabana, teve um de seus shows assistido pelo Poetinha. Encantado com o jeito de Baden tocar, Vinicius convidou o jovem músico a compor algumas “musiquinhas”. Na época em questão, a parceria entre Tom Jobim e Vinícius já dava o que falar e Baden, muito entusiasmado, não hesitou aceitar o convite.

>>Os três primeiros encontros da dupla foram verdadeiros fracassos. Sempre acontecia algo e um dos dois faltava. Foi, então, que eles decidiram parar por três meses e dedicarem-se exclusivamente à música. Vinicius De Moraes, que ainda era diplomata, pediu licença ao Itamaraty, em seguida ligou para os pais do Baden Powell, avisando que o amigo iria passar alguns dias compondo em sua casa. Com apenas um violão, uma máquina de escrever e o melhor amigo de Vinicius - uma garrafa de whisky - os dois criaram clássicos que marcariam a Bossa Nova.

>>O disco“Os Afro- Sambas de Baden e Vinicius”, lançado em 1966, é o segundo feito pelos dois. A idéia por traz do álbum veio quando o poeta foi presenteado ao LP “Sambas de Roda e Candomblés da Bahia”, pelo baiano Carlos Coqueijo Costa. Impressionado com a sonoridade, Vinicius mostrou o álbum ao amigo, que, em 1962, ao visitar a Bahia para apresentar-se em um show com Silvia Teles, foi apresentado ao capoeirista Canjiquinha. Ele, por sua vez, apresentou a Baden as rodas de capoeira, é claro, e os terreiros. Fascinado, Baden Powell, ao se reencontrar com Vinicius, inicia uma série de canções sobre a cultura afro-brasileira: “os afro-sambas”.

>>Da idealização até a etapa final de gravação são vários os fatos curiosos que circundam o disco. A gravação do disco contou não só com a ajuda do produtor ROBERTO QUARTIN e das meninas do QUARTETO EM CY com também, com a ajuda de um coro misto formado por amigos dos músicos. Do “Coro da Amizade”, assim denominado carinhosamente por Vinicius, faziam parte: Eliana Sabino, filha de Fernando Sabino; Bety Faria; Tereza Drumond; namorada de Baden na época; Nelita, então esposa de Vinicius; o psiquiatra César Augusto Parga Proença e o médico Otto Gonçalves Filho. Além disso, na mesma época em que Baden Powell e Vinicius De Moraes iniciaram a composição, o violonista estava estudando canto gregoriano. E foi durante a sua pesquisa que Baden percebeu que os cantos atribuídos ao Papa Gregório I se semelhavam muito aos afros. Dessa forma, surgiu a idéia de mesclar o batuque, o “erudito” e o samba, o que gerou uma musicalidade única, em tempos em que a Bossa Nova, guiada por Marcos Valle, Dori Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime e Joyce, que críticavam as influências do Jazz norte-americano no ritmo brasileiro, sofria uma releitura.

>>“Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius” é considerado hoje, por muitos críticos, um divisor de águas na MPB. Inovador, o álbum traz uma série de elementos que misturados revelam uma fusão de musicalidades que, por sua vez, reflete o caldeirão étnico que é o Brasil. No disco, atabaques, afoxés agogôs, saxofones e pandeiros tocam lado a lado, realizando uma espécie de celebração da brasilidade. Nas próprias palavras de Vinicius: “[...] Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe, ao mesmo tempo, uma dimensão mais universal [...].”.

>>No entanto, apesar de ajudar a compor uma verdadeira obra-prima, Baden Powell sempre reclamou da qualidade de gravação do álbum. Ele argumentava que a atmosfera de terreiro que o percursionista Guerra Peixe queria recriar muito ficou precária, pois não era possível, devido a tecnologia da época, capturar de modo limpo o som com um grande número de instrumentos de percussão. Além disso, o violonista dizia que não dava para se entender muito bem o que Vinicius canta em algumas faixas, uma vez que as vozes do poetinha e do coro pareciam se em bolar – o que pode ser percebido em na música “Canto de Xangô”. Nem tudo é perfeito.

>>Assim, se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinicius”. Pois, esse álbum repleto de singularidades é tão simples em sua complexidade, ou vice-versa, que com problemas de gravação ou sem merece, sem dúvida alguma, ser ouvido mesmo por aqueles que dizem “não curtir muito MPB”. As letras que a primeira vista podem parecer pouco profundas, se observadas com um pouco de curiosidade, dão a conhecer muito bem os ensinamentos de uma das religiões que ajudou a formar o caráter cultural brasileiro: o candomblé. E se não for pelo cunho histórico, que seja pela música em si. Os ritmos predominantemente calmos parecem mexer com o estado de espírito de quem os ouve. Além, é claro, de surpreender pela imensa harmonia resultante da mistura excêntrica entre o samba, canto afro e o gregoriano. Sem falar no leve toque de Bossa que pode ser percebido em músicas como “Tristeza e Solidão”. Por último, recomendo que quem for ouvir os afro-sambas que o faça com muita atenção, pois, dessa forma, poderá perceber a presença de cada estilo e como eles interagem entre si ao longo das oito faixas que compões o disco.


(Paula Vieira)




Obs: para quem não gosta de baixar antes de conhecer as músicas, uma alternativa é o site www.radio.uol.com.br .



Um comentário:

Jessica Mello disse...

Infelizmente, encontrar um cd desses por aí é bem difícil. Resta-nos a bela tecnologia da internet para baixarmos suas músicas e analisarmos se o que dizes é verdade hehe

Beijocas queri!