sábado, 26 de janeiro de 2008

Diálogo “haikainiano”

Diálogo “haikainiano”

Piada em tempo real, o paradoxo da globalização:
- Quero muito, muito, muito férias.
- Na verdade, você está em férias.


(Paula Vieira)

Sonhos (Poema dos Dez Anos)


Sonhos
(Poema dos Dez Anos)

Sonhos são versos.
Versos de vida.
Vida vivida na mente humana, que não é insana.
Porém, absurda.
Mente, que cria a vida na mente, que é realmente o sonho da gente.

(Paula Vieira)


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Disse?

Disse?


Tirei o dia para vasculhar os teus escritos.
Foi tão de repente quando me peguei lendo as tuas palavras.
Por um momento, reconheci velhos pensamentos meus naquelas linhas.
Não que você os tivesse copiado.
Pelo contrário, tudo ali era seu.
Tudo ali era meu.
Os dias, caro amigo, parecem tão curtos.
Há muito tempo que não penso mais em mim.
Há muito tempo que deixei de ser assim.
Mas um dia, um dia, eu volto lá.
Você vai ver.
Não sei se vai gostar.
Mas, sinceramente, eu espero que eu goste.
Juntar o bom do novo com o bom do velho.
Tarefa difícil.
Não moldar, sim construir.
Ninguém disse que ia ser fácil, disse?


(Paula Vieira)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.



>>Esgotados os “cantores”, quer dizer, o material que tinha em mãos e sem poder baixar músicas para reproduzir no programa, ordem da direção, busquei outras alternativas.

>>Primeiro, fiz uma lista com vários nomes de músicos da nossa querida MPB, cujos materiais poderiam estar no acervo. E ai começou a loucura. Encontrei muitos dos nomes que havia escrito e outros mais. No entanto, os álbuns dos quais dispunha ou estavam em condições impróprias para reprodução em rádio, se é que você me entende, ou eram insuficientes para que eu pudesse desenvolver um texto suficientemente bom ao meu ver. Eu gostava de fazer uma espécie de retrospectiva que envolvesse a vida e a carreira do artista em questão. Lembrava da época em que estava me preparando para o vestibular. Um dos fatos que mais me deu prazer ao estudar literatura foi conhecer um pouco mais da vida do autor, saber de curiosidades, de acontecimentos marcantes e, é claro, poder relacioná-los com o período histórico em que aquela peça literária fora escrita. Esse conhecimento era para mim uma espécie de chave que me permitia “entrar” na mente do escritor e descobrir (imaginar) o que o teria levado a escrever tais orações. Pode parecer loucura, mas, de certa forma, gostava de escrever programas com o intuito de provocar tal sensação no ouvinte.

>>Sem muito sucesso, resolvi mudar de estratégia. Depois de um tempinho, uma pergunta veio a minha mente: por que não produzir um programa a partir de um álbum? Solucionado um impasse, parti em busca da solução de outro: e qual seria este álbum? Bom, pensei cá com meus botões, como se eu os tivesse, teria que ser um álbum significativo para a história da música brasileira. Não queria musicas boas apenas, queria musicas de qualidade, com conteúdo e que apresentassem algo inédito, inovador. Foi então, que “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius” me veio à cabeça. Eu já havia feito programas a cerca desses grandes nomes da MPB, nos quais fiz breves citações a respeito da curta, mas produtiva, parceria entre os dois músicos. Ainda assim, senti que a exploração dessas produções não foi suficiente e vi nesse último programa de Dezembro uma oportunidade.

>>A parceria entre Vinícius de Moraes e Baden Powell começou em 1962, quando violonista, que tocava na boate Arpège, em Copacabana, teve um de seus shows assistido pelo Poetinha. Encantado com o jeito de Baden tocar, Vinicius convidou o jovem músico a compor algumas “musiquinhas”. Na época em questão, a parceria entre Tom Jobim e Vinícius já dava o que falar e Baden, muito entusiasmado, não hesitou aceitar o convite.

>>Os três primeiros encontros da dupla foram verdadeiros fracassos. Sempre acontecia algo e um dos dois faltava. Foi, então, que eles decidiram parar por três meses e dedicarem-se exclusivamente à música. Vinicius De Moraes, que ainda era diplomata, pediu licença ao Itamaraty, em seguida ligou para os pais do Baden Powell, avisando que o amigo iria passar alguns dias compondo em sua casa. Com apenas um violão, uma máquina de escrever e o melhor amigo de Vinicius - uma garrafa de whisky - os dois criaram clássicos que marcariam a Bossa Nova.

>>O disco“Os Afro- Sambas de Baden e Vinicius”, lançado em 1966, é o segundo feito pelos dois. A idéia por traz do álbum veio quando o poeta foi presenteado ao LP “Sambas de Roda e Candomblés da Bahia”, pelo baiano Carlos Coqueijo Costa. Impressionado com a sonoridade, Vinicius mostrou o álbum ao amigo, que, em 1962, ao visitar a Bahia para apresentar-se em um show com Silvia Teles, foi apresentado ao capoeirista Canjiquinha. Ele, por sua vez, apresentou a Baden as rodas de capoeira, é claro, e os terreiros. Fascinado, Baden Powell, ao se reencontrar com Vinicius, inicia uma série de canções sobre a cultura afro-brasileira: “os afro-sambas”.

>>Da idealização até a etapa final de gravação são vários os fatos curiosos que circundam o disco. A gravação do disco contou não só com a ajuda do produtor ROBERTO QUARTIN e das meninas do QUARTETO EM CY com também, com a ajuda de um coro misto formado por amigos dos músicos. Do “Coro da Amizade”, assim denominado carinhosamente por Vinicius, faziam parte: Eliana Sabino, filha de Fernando Sabino; Bety Faria; Tereza Drumond; namorada de Baden na época; Nelita, então esposa de Vinicius; o psiquiatra César Augusto Parga Proença e o médico Otto Gonçalves Filho. Além disso, na mesma época em que Baden Powell e Vinicius De Moraes iniciaram a composição, o violonista estava estudando canto gregoriano. E foi durante a sua pesquisa que Baden percebeu que os cantos atribuídos ao Papa Gregório I se semelhavam muito aos afros. Dessa forma, surgiu a idéia de mesclar o batuque, o “erudito” e o samba, o que gerou uma musicalidade única, em tempos em que a Bossa Nova, guiada por Marcos Valle, Dori Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime e Joyce, que críticavam as influências do Jazz norte-americano no ritmo brasileiro, sofria uma releitura.

>>“Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius” é considerado hoje, por muitos críticos, um divisor de águas na MPB. Inovador, o álbum traz uma série de elementos que misturados revelam uma fusão de musicalidades que, por sua vez, reflete o caldeirão étnico que é o Brasil. No disco, atabaques, afoxés agogôs, saxofones e pandeiros tocam lado a lado, realizando uma espécie de celebração da brasilidade. Nas próprias palavras de Vinicius: “[...] Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe, ao mesmo tempo, uma dimensão mais universal [...].”.

>>No entanto, apesar de ajudar a compor uma verdadeira obra-prima, Baden Powell sempre reclamou da qualidade de gravação do álbum. Ele argumentava que a atmosfera de terreiro que o percursionista Guerra Peixe queria recriar muito ficou precária, pois não era possível, devido a tecnologia da época, capturar de modo limpo o som com um grande número de instrumentos de percussão. Além disso, o violonista dizia que não dava para se entender muito bem o que Vinicius canta em algumas faixas, uma vez que as vozes do poetinha e do coro pareciam se em bolar – o que pode ser percebido em na música “Canto de Xangô”. Nem tudo é perfeito.

>>Assim, se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinicius”. Pois, esse álbum repleto de singularidades é tão simples em sua complexidade, ou vice-versa, que com problemas de gravação ou sem merece, sem dúvida alguma, ser ouvido mesmo por aqueles que dizem “não curtir muito MPB”. As letras que a primeira vista podem parecer pouco profundas, se observadas com um pouco de curiosidade, dão a conhecer muito bem os ensinamentos de uma das religiões que ajudou a formar o caráter cultural brasileiro: o candomblé. E se não for pelo cunho histórico, que seja pela música em si. Os ritmos predominantemente calmos parecem mexer com o estado de espírito de quem os ouve. Além, é claro, de surpreender pela imensa harmonia resultante da mistura excêntrica entre o samba, canto afro e o gregoriano. Sem falar no leve toque de Bossa que pode ser percebido em músicas como “Tristeza e Solidão”. Por último, recomendo que quem for ouvir os afro-sambas que o faça com muita atenção, pois, dessa forma, poderá perceber a presença de cada estilo e como eles interagem entre si ao longo das oito faixas que compões o disco.


(Paula Vieira)




Obs: para quem não gosta de baixar antes de conhecer as músicas, uma alternativa é o site www.radio.uol.com.br .



sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

LUZIA

LUZIA

>>Uma dor forte na parte posterior da cabeça, foi essa a sensação que LUZIA teve quando acordou. Pelos fracos raios de luz que tentavam entrar pela janela, deviam ser quase seis horas da manhã. Ela, então, senta-se a beira da cama. A dor persiste por alguns minutos, mas, logo, a senhora de 64 anos levanta-se e vai tomar uma ducha antes de vestir o uniforme de trabalho. Ela conhecia aquela família desde que era uma mocinha. A tia JOSÉFA, que a criou, trabalhara para aquela gente desde a sua juventude até seu último dia. LUZIA parecia estar seguindo o mesmo caminho.

>>Em pouco tempo, a velha empregada já estava pronta para iniciar mais um dia de afazeres domésticos e passeios com o cachorrinho da menina HELEN, ou melhor, da Dona HELEN. A menina a qual ajudara a acobertar algumas de suas traquinagens, depois da morte da mãe, não gostava mais de ser vista como uma menina. Agora, ela era uma mulher, era a dona da casa e deveria ser tratada como tal. Um subordinado é um subordinado e deve recolher-se a sua função - dizia sempre a madame, que inventou que LUZIA, além de limpar, cozinhar, lavar e passar, deveria arrumar tempo para levar o FOFINHO para cagar, quer dizer, tomar um sol na vizinhança. HELEN sabia que a empregada, em função da idade, já não tinha o mesmo vigor de antes. As pernas doíam e LUZIA não conseguia andar 2/5 de quadra sem dar uma paradinha. Mas, mesmo assim, HELEN insistiu com a tal história do cachorro.

>>E lá ia LUZIA rumo a mais uma jornada diária. Ela esquentou o café em seu fogareiro, que mantinha em seu quarto. Enquanto toma o café, a velha empregada lembra como as coisas eram diferentes com DONA AURORA. LUZIA e a tia dividiam uma espécie de casinha de duas peças, quarto e banheiro, nos fundos da casa grande. No entanto, agora, dez anos depois, a menina virou DONA e deu à LUZIA, sem maiores explicações, um prazo de 30 dias para que arrumasse outro lugar para morar. Assim, para não perder o emprego, a empregada sujeitou-se a tal humilhação dizendo: Sim Senhora, em um mês, eu saio daqui. No fundo, LUZIA conservava uma certa esperança, ela acreditava que aquilo tudo não passava de mais um capricho de menina mimada e que a patroa acabaria caindo em si.

>>Enfim, são sete horas. LUZIA adentra a casa grande e começa a preparar o café da manhã. Suco de laranja, mamão cortado ao meio sem sementes, torradinhas, pão integral fresco, café preto passado na hora, leite, amoras, requeijão light, mel, manteiga, geléias (...), um verdadeiro “banquete-ególatra”. Solteira e sem filhos, ela nunca suportou crianças, DONA HELEN fazia questão de uma mesa farta em todas as refeições, mesmo que a única pessoa a comer fosse ela.

>>O ritual matinal da patroa estava prestes a começar quando, algo excepcional aconteceu. Ainda em seus trajes de dormir, HELEN sentou-se à mesa e pediu, com um tom arrogante, que LUZIA servisse o seu café. Quando a empregada pegou o bule, sentiu-se tonta e acabou derramando um pouco de café no chão. A “menina-dona” gritou - Velha inútil, limpe já esta sujeira! – e saiu da sala de jantar. LUZIA, quase chorando, abaixou-se para limpar o tapete, e, quando estava prestes a se levantar, bateu sua nuca na mesa de mogno.

>>A empregada desmaiou e, quando acordou e olhou ao seu redor, não reconheceu nenhum dos traços da sala na qual se encontrava. Outro fato curioso é que todos, agora, chamavam-na agora de HELEN. Sem entender, LUZIA pediu que trouxessem um espelho. Para sua surpresa, a imagem que viu refletida não se parecia em nada com a de LUZIA, mas sim com a dona da casa. Assustada e confusa a mulher começou a chorar. Um médico aproximou-se, pedindo que ela tivesse calma. O doutor, então, tentou explicar a ela que não havia necessidade para pânico, que tudo se passara de, apenas, um sonho provocado pelo incidente. Com uma cara de espanto, ela pergunta sobre qual avia sido suposto incidente. Ele começa a explicar:

>>- Você está aqui há alguns dias. Sofreu um desmaio, quando recebeu a notícia da morte de LUZIA, e bateu a cabeça na quina da mesa de centro de sua sala.

>>A expressão facial de HELEN demonstrava que ela desconhecia o conteúdo da conversa. O médico, diante da situação, decidiu prosseguir a explicação mostrando à paciente as principais manchetes dos jornais de uma semana atrás. Todas falavam da morte de uma empregada doméstica de 64 anos que foi baleada em um assalto a um ônibus, no final da tarde. Nesse momento, a menina começa a recobrar a memória e recorda que LUZIA estava naquele ônibus por conta do ultimato que ela dera para a empregada arrumar outro lugar para morar. Sem saber direito o que fazer, a HELEN pede que o médico traga um ferro de passar roupa. E, com o ferro nas mãos, passa a caminhar de um lado para o outro do quarto da casa de repouso, vulgo hospício, arrastando o ferro e dizendo:

>>- Vamos FOFINHO, a menina não vai gostar nada, nada se eu me atrasar para pôr a mesa do café da tarde.

(Paula Vieira)