sábado, 26 de janeiro de 2008
Diálogo “haikainiano”
Piada em tempo real, o paradoxo da globalização:
- Quero muito, muito, muito férias.
- Na verdade, você está em férias.
(Paula Vieira)
Sonhos (Poema dos Dez Anos)
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Disse?
Tirei o dia para vasculhar os teus escritos.
Foi tão de repente quando me peguei lendo as tuas palavras.
Por um momento, reconheci velhos pensamentos meus naquelas linhas.
Não que você os tivesse copiado.
Pelo contrário, tudo ali era seu.
Tudo ali era meu.
Os dias, caro amigo, parecem tão curtos.
Há muito tempo que não penso mais em mim.
Há muito tempo que deixei de ser assim.
Mas um dia, um dia, eu volto lá.
Você vai ver.
Não sei se vai gostar.
Mas, sinceramente, eu espero que eu goste.
Juntar o bom do novo com o bom do velho.
Tarefa difícil.
Não moldar, sim construir.
Ninguém disse que ia ser fácil, disse?
(Paula Vieira)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.
>>Esgotados os “cantores”, quer dizer, o material que tinha em mãos e sem poder baixar músicas para reproduzir no programa, ordem da direção, busquei outras alternativas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
LUZIA
>>Uma dor forte na parte posterior da cabeça, foi essa a sensação que LUZIA teve quando acordou. Pelos fracos raios de luz que tentavam entrar pela janela, deviam ser quase seis horas da manhã. Ela, então, senta-se a beira da cama. A dor persiste por alguns minutos, mas, logo, a senhora de 64 anos levanta-se e vai tomar uma ducha antes de vestir o uniforme de trabalho. Ela conhecia aquela família desde que era uma mocinha. A tia JOSÉFA, que a criou, trabalhara para aquela gente desde a sua juventude até seu último dia. LUZIA parecia estar seguindo o mesmo caminho.
>>Em pouco tempo, a velha empregada já estava pronta para iniciar mais um dia de afazeres domésticos e passeios com o cachorrinho da menina HELEN, ou melhor, da Dona HELEN. A menina a qual ajudara a acobertar algumas de suas traquinagens, depois da morte da mãe, não gostava mais de ser vista como uma menina. Agora, ela era uma mulher, era a dona da casa e deveria ser tratada como tal. Um subordinado é um subordinado e deve recolher-se a sua função - dizia sempre a madame, que inventou que LUZIA, além de limpar, cozinhar, lavar e passar, deveria arrumar tempo para levar o FOFINHO para cagar, quer dizer, tomar um sol na vizinhança. HELEN sabia que a empregada, em função da idade, já não tinha o mesmo vigor de antes. As pernas doíam e LUZIA não conseguia andar 2/5 de quadra sem dar uma paradinha. Mas, mesmo assim, HELEN insistiu com a tal história do cachorro.
>>E lá ia LUZIA rumo a mais uma jornada diária. Ela esquentou o café em seu fogareiro, que mantinha em seu quarto. Enquanto toma o café, a velha empregada lembra como as coisas eram diferentes com DONA AURORA. LUZIA e a tia dividiam uma espécie de casinha de duas peças, quarto e banheiro, nos fundos da casa grande. No entanto, agora, dez anos depois, a menina virou DONA e deu à LUZIA, sem maiores explicações, um prazo de 30 dias para que arrumasse outro lugar para morar. Assim, para não perder o emprego, a empregada sujeitou-se a tal humilhação dizendo: Sim Senhora, em um mês, eu saio daqui. No fundo, LUZIA conservava uma certa esperança, ela acreditava que aquilo tudo não passava de mais um capricho de menina mimada e que a patroa acabaria caindo em si.
>>Enfim, são sete horas. LUZIA adentra a casa grande e começa a preparar o café da manhã. Suco de laranja, mamão cortado ao meio sem sementes, torradinhas, pão integral fresco, café preto passado na hora, leite, amoras, requeijão light, mel, manteiga, geléias (...), um verdadeiro “banquete-ególatra”. Solteira e sem filhos, ela nunca suportou crianças, DONA HELEN fazia questão de uma mesa farta em todas as refeições, mesmo que a única pessoa a comer fosse ela.
>>O ritual matinal da patroa estava prestes a começar quando, algo excepcional aconteceu. Ainda em seus trajes de dormir, HELEN sentou-se à mesa e pediu, com um tom arrogante, que LUZIA servisse o seu café. Quando a empregada pegou o bule, sentiu-se tonta e acabou derramando um pouco de café no chão. A “menina-dona” gritou - Velha inútil, limpe já esta sujeira! – e saiu da sala de jantar. LUZIA, quase chorando, abaixou-se para limpar o tapete, e, quando estava prestes a se levantar, bateu sua nuca na mesa de mogno.
>>A empregada desmaiou e, quando acordou e olhou ao seu redor, não reconheceu nenhum dos traços da sala na qual se encontrava. Outro fato curioso é que todos, agora, chamavam-na agora de HELEN. Sem entender, LUZIA pediu que trouxessem um espelho. Para sua surpresa, a imagem que viu refletida não se parecia em nada com a de LUZIA, mas sim com a dona da casa. Assustada e confusa a mulher começou a chorar. Um médico aproximou-se, pedindo que ela tivesse calma. O doutor, então, tentou explicar a ela que não havia necessidade para pânico, que tudo se passara de, apenas, um sonho provocado pelo incidente. Com uma cara de espanto, ela pergunta sobre qual avia sido suposto incidente. Ele começa a explicar:
>>- Você está aqui há alguns dias. Sofreu um desmaio, quando recebeu a notícia da morte de LUZIA, e bateu a cabeça na quina da mesa de centro de sua sala.
>>A expressão facial de HELEN demonstrava que ela desconhecia o conteúdo da conversa. O médico, diante da situação, decidiu prosseguir a explicação mostrando à paciente as principais manchetes dos jornais de uma semana atrás. Todas falavam da morte de uma empregada doméstica de 64 anos que foi baleada em um assalto a um ônibus, no final da tarde. Nesse momento, a menina começa a recobrar a memória e recorda que LUZIA estava naquele ônibus por conta do ultimato que ela dera para a empregada arrumar outro lugar para morar. Sem saber direito o que fazer, a HELEN pede que o médico traga um ferro de passar roupa. E, com o ferro nas mãos, passa a caminhar de um lado para o outro do quarto da casa de repouso, vulgo hospício, arrastando o ferro e dizendo:
>>- Vamos FOFINHO, a menina não vai gostar nada, nada se eu me atrasar para pôr a mesa do café da tarde.
(Paula Vieira)