quarta-feira, 23 de julho de 2008

3º Festival de Inverno de Porto Alegre

3º Festival de Inverno de Porto Alegre


A Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre promove, pela terceira vez, o Festival de Inverno. O evento, que ocorre de 20 a 28 de julho, proporciona, a custos acessíveis, uma série de shows, cursos e, pela primeira vez, um ciclo cinematográfico com obras do cineasta brasileiro Cacá Diegues. Outra atração destaque do evento é a presença do jornalista Fernando Moraes. O autor de livros como “A Ilha”, “Olga” e “Chatô, o rei do Brasil” vem à Capital dos Gaúchos falar sobre o seu mais recente lançamento - “O Mago”, a obra que conta a vida do literário brasileiro mais lido no Mundo, Paulo Coelho. Grandes nomes da música internacional e nacional, como Jorge Drexler (cujas entradas esgotaram antes mesmo do festival começar) e Quarteto em Cy (que se apresenta na próxima segunda-feira, 28, no Bourbon Country) também marcam presença.
(Mais informações sobre a programação podem ser obtidas no site: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/festinverno )

Na última terça-feira, 22, ocorreram os shows de Fruet e os Cozinheiros e Lei Lisboa e Ná Ozzetti.

Com um jogo de luzes (que rendeu belas imagens), muita fumaça e uma mistura de vários estilos, Fruet e os Cozinheiros conquistaram o público porto-alegrense. O Teatro de Câmara lotou e os aplausos foram constantes ao término de cada música

(Foto: Paula Vieira / PMPA)

Já, Ná Ozzetti, que se apresentou minutos antes de Nei Lisboa subir ao palco, não deixou a desejar nem mesmo quando esqueceu a letra de uma música. Muito afinada, a cantora interpretou quase que brincando alguns clássicos, como Carmem Miranda. Ná Ozzetti terminou o show entre risos e aplausos de espectadores das mais variadas idades.

(Foto: Paula Vieira / PMPA)


Nei Lisboa também conteve a atenção do público, que cantou com o músico todas as faixas apresentadas ao longo do show. Foi incrível observar a intimidade revelada pela interação entre aquele que presencia e aquele que acena.



(Foto: Paula Vieira /PMPA)


(Mais fotos do Festival, inclusive as minhas, podem ser vistas no site: http://bancodeimagens.procempa.com.br)


quarta-feira, 16 de julho de 2008

Aquecimento Global: de quem é a culpa?

Recentemente, me dispus a escrever para o Jornal da Universidade.
Abaixo, segue o link para a matéria de minha autoria - Aquecimento Global: de quem é a culpa?
Em breve, mais matérias!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Vermelho

Vermelho


Não sei como me percorre.
Só sei que vai além.
Transcende as os vasos, o pensamento (...),
Fazendo pulsar aquele ar pálido, gelado, que agora dança aos meus olhos.
Tudo esta vivo.
Mas não vivo do tipo que renasce.
Se não estava vivo antes, não pode renascer.
O surreal não é mais su.
Pulsa, aperta-me até eu quase desmaiar.
Não é medo, mas felicidade.
O escuro nunca foi tão gostoso.
Posso sentir o cheiro de gengibre entre os lábios.
Por vezes cai.
Prometi àquela criança que o passado ia se perder.
E se perdeu?
Não sei, não penso mais nisso.
Só sei que vai além.
Vermelho, fazendo pulsar o ar.

(Paula Vieira)

domingo, 30 de março de 2008

SEU, MEU, NOSSO.

SEU, MEU, NOSSO.

Gostaria de compreender de onde vem esse prazer repugnante que o ser humano sente ao segregar?
Não basta estar em condição mais confortável que o outro?
Por quê?
O que há de belo em ver o outro humilhado?
Não bastam os assaltos, os acidentes, o pouco sono, o desemprego, a saúde precária e a educação cara?

Não é mais uma questão econômica, ideológica (...).
O medo é coletivo. A morte também.

(Paula Vieira)

A LIBERDADE DE IMPRENSA HOJE

A LIBERDADE DE IMPRENSA HOJE
Qual a função dos jornais e os limites da ética jornalística?

Por Ana Paula Andrade Vieira
(Paula Vieira)

Há poucos dias, uma série de acontecimentos reavivou uma questão que há muito persegue os veículos brasileiros de comunicação: a liberdade de imprensa. No dia 14 de Fevereiro, cerca de 67 ações orquestradas de danos morais foram movidas por fiéis e pastores da Igreja Universal contra a Folha da Manhã S.A. – empresa que edita o Jornal Folha de São Paulo – e a jornalista Elvira Lobato. Com os processos em curso, vários órgãos manifestaram-se, dentre eles a CIDH da OEA, que, no dia 10 deste mês, questionou o Governo Brasileiro a respeito da situação da liberdade de expressão no país. Por fim, no último dia 19, após a ação do Supremo Tribunal Federal que suspendeu 20 dos 77 artigos da Lei de Imprensa, o Congresso Nacional retomou o debate sobre a questão.
O surgimento da imprensa no Brasil é por si só controverso. Há quem afirme que o primeiro periódico brasileiro nasceu em 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa, mais especificamente, com a chegada de Dom João VI. O monarca - que queria um meio sólido pelo qual sua palavra pudesse circular e, ao mesmo tempo, entreter a corte com notícias sobre a mesma - suspendeu a proibição da prensa em 13 de Maio de 1808. Então, em 10 de Setembro do mesmo ano, fez-se a “Gazeta do Rio de Janeiro”. O jornal era uma espécie de adaptação da “Gazeta de Lisboa” e foi o primeiro a ser impresso no país, sobre censura prévia, pelas máquinas da Imprensa Régia. No entanto, uma outra corrente alega que antes já havia um noticioso brasileiro. O “Correio Braziliense” criado por Hipólito José da Costa em 1º de Junho de 1808, embora fosse produzido na Inglaterra e circulasse clandestinamente aqui, é aclamado por muitos como sendo o primeiro jornal do Brasil.
Treze anos depois da publicação do primeiro número da “Gazeta do Rio de Janeiro”, um folhetim “anônimo” iniciou, de fato, o debate sobre a liberdade de imprensa. Isabel Lustosa, escritora e pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, relata, em seu livro “Insultos impressos: a guerra dos jornalistas na Independência (1821 – 1823)”, o episódio em que o comendador e coronel francês F. Caille de Geine escreveu, em Janeiro de 1821, um folheto não assinado argumentando que a Família Real Portuguesa deveria permanecer no Brasil. O anonimato - que atribuía autoria a qualquer um - e seu caráter político - apesar de a favor do governo vigente - contribuíram para que mais impressos do mesmo gênero fossem produzidos. “Era a confirmação da liberdade de imprensa” segundo Lustosa.
Mais de 150 anos depois, a imprensa brasileira, com sua indústria em vias de consolidação, passou por maus bocados que reacenderam a luta pela liberdade de expressão. Durante todo o Regime Militar, que começou em 1964 com o Golpe militar e terminou em 1984-85 com o movimento “Diretas-Já” e a eleição de Tancredo Neves, a mídia e seus respectivos profissionais permaneceram censurados, sendo muitos vítimas de severas repreensões. O Ato Institucional Nº 5, que vigorou de 1968 a 1978, estabeleceu, dentre outras coisas, a censura prévia dos meios de comunicação, que se estendia à música, ao teatro e ao cinema. Muitos jornalistas morreram em prol da liberdade de expressão, dentre eles, Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da Televisão Cultura de São Paulo, brutalmente assassinado nas dependências do DOI-Codi, em 1975.
Atualmente, a discussão a cerca da liberdade de imprensa parece um pouco mais complexa. Se antes ela envolvia valores políticos, hoje também abrange o campo ético. Um exemplo recente foi moção de ações sobre a acusação de danos morais contra Elvira Lobato e a Folha da Manhã S.A. Fiéis e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus acusaram de difamação a jornalista e empresa devido à publicação da matéria “Igreja Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, no dia 15 de Dezembro do ano passado.
O fato provocou uma agitação tão grande que, no último encontro promovido pela OEA, muitos órgãos resolveram se pronunciar. Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), o Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e a Article 19, ONG global que luta liberdade de expressão, argumentaram que o crescimento no número de processos difamatórios envolvendo jornalistas tem prejudicado o andamento de matérias. Para Paula Martins, da Article 19, “o que mais preocupa é a articulação com intuito de intimidar a empresa e o jornalista”. Ainda, a Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos da OEA questionou o Governo brasileiro sobre que medidas o país estaria tomando para erradicar restrições indevidas à liberdade de expressão. A CIDH fez referência, além do ocorrido citado acima, a medidas cautelares impetradas por juízes contra jornalistas que poderiam, de acordo com a comissão, caracterizar censura prévia.
Se por um lado alguns órgãos acreditam em uma “censura em pele de ofensa moral”, por outro, determinados seguimentos sociais alegam que a imprensa está passando dos limites. Alguns religiosos, intelectuais, pessoas-públicas e movimentos sociais vêem a postura profissional jornalística como invasiva, sensacionalista. Para boa parte da sociedade é como se o jornalista estivesse deixando de lado seu papel social de fiscalizador do público e do privado e tivesse rendido-se a competitividade, a “lei do quem vende mais”, expondo, assim, acontecimento de maneira falaciosa.
Por fim, após a ação do Supremo Tribunal Federal e Proposta do Senado, o Congresso Nacional retomou o debate sobre o tema. O Plenário do STF referendou, no dia 27 de Fevereiro, a liminar do Ministro Carlos Ayres Britto que suspendeu 20 dos 77 artigos da Lei de Imprensa (5.250/67). Pela decisão, juízes de todo o país podem utilizar regras dos Códigos Penal e Civil para julgar processos que versem sobre dispositivos sem eficácia. Questões envolvendo direito de resposta – previsto pela Lei 5.250/67 - regras da própria Constituição Federal devem ser aplicadas. Boa parte do debate entre os ministros girou em torno da possível suspensão de toda a Lei. Dos dez que participaram do julgamento, cinco votaram conforme o entendimento de Ayres Britto, suspendendo apenas parte. Eles decidiram que a possibilidade de suspensão total deverá ser analisada no julgamento final da ação. Para Carlos Ayres Britto, “Imprensa e democracia, na vigente ordem constitucional, são irmãs siamesas”. No entanto, o Ministro Ricardo Lewandowski acredita que, numa primeira análise, “a Lei de Imprensa conflita com a Constituição”.
Já, no Senado, surgiu uma nova proposta de acréscimo à Lei 5.250/67. No dia 7 de Março, o Senador Marcelo Crivela (PRB/RJ) apresentou um projeto que propõe que, previamente à publicação de matérias que imputem a prática de condutas tipificadas como ilícito administrativo, civil, penal ou com repercussão negativa sobre a dignidade de alguém, devem ouvir a parte acusada. Em resposta, Sérgio Murillo de Andrade, Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, afirmou que “esse projeto é um absurdo. Se aprovado vai engessar a reportagem. Ouvir o outro lado é um princípio ético, não pode virar lei”. Em nota, a FENAJ – que luta pela regulamentação de um Conselho Federal de Jornalistas - alegou que o momento é propício para a aprovação do substitutivo Vilmar Rocha (projeto de lei 3.232/1992), que requer: a proibição da apreensão de publicações ou suspensão de transmissões de rádio ou TV, a agilização do direito de resposta e a garantia da pluralidade na cobertura de questões polêmicas, entre outros.
No último dia 19, o Congresso reabriu o debate sobre a Lei 5.250/67. Hoje, embora nada tenha sido decidido, há dezenas de projetos em tramitação no Congresso Nacional sobre a Lei de Imprensa. Inclusive, alguns parlamentares avaliam como nula a necessidade da existência desta lei.

Geraldo Canali, Professor de História da Imprensa da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS, deu seu ponto de vista a respeito do assunto.
Paula Vieira - O que se pode tomar por liberdade de imprensa?
Geraldo Canali - A liberdade de imprensa, em tese, deve ser caracterizada pela disponibilidade de meios através dos quais a sociedade, na sua maior dimensão, possa se expressar. Então, ela não existe quando essa está concentrada nas mãos de poucos. O conceito de liberdade de imprensa provém de uma outra realidade social, econômica e política gerada no ambiente Iluminista, no ambiente das revoluções burguesas do século XVIII, principalmente, da Revolução Francesa. Naquele momento, havia uma profusão de veículos representando várias manifestações de pensamento diante de um Estado Absolutista opressor. Segundo Peter Burke em História Social da Mídia, havia cerca de 240 jornais circulando momentos antes da Revolução Francesa, ou seja, mesmo os campesinos analfabetos, através do processo de leitura nas comunidades, tinha acesso a informação e meios para se expressar. Dessa forma, a liberdade de imprensa é fundamentalmente uma liberdade de expressão da sociedade, diferente do conceito usado hoje pela própria imprensa, que o de dizer o que bem entender afete ou não seja lá quem for. Liberdade de imprensa para mim pressupõem: diversidade, pluralidade e representatividade no mais amplo espectro da sociedade.

Paula Vieira – De acordo com as caracteristas levantadas, pode se dize que houve ou há no Brasil liberdade de imprensa?

Geraldo Canali – Eu diria que é paradoxal. Muitas vezes, houve em alguns momentos de crise, de restrições políticas, como, por exemplo, no período da Ditadura de 1964, um esforço que acabava gerando uma certa liberdade de imprensa. No momento em que os grandes jornais, como o Estado de São Paulo, colocava poesias ou receitas nos espaços censurados, aquela era uma informação projetada para a sociedade de que havia uma ditadura que estava sonegando informações importantes. Além disso, há profusão de jornais alternativos que acabam sobrevivendo porque há uma demanda muito grande de informações alternativas. Um exemplo é o Pasquim, que passou a ter uma atuação expressiva grande durante da Ditadura Militar. Mas, a liberdade em um nível satisfatório de representação de pensamentos críticos da sociedade são raras as ocorrências na história do Brasil.

Paula Vieira – Como se caracteriza a ética jornalística com relação ao papel desse profissional na sociedade?

Geraldo Canali – Eu sigo a mesma lógica do Persceu Abramos, que sintetizou a ética do jornalista como a ética do cidadão comum sem prepotência. Ele deve agir como um sapateiro de bem, um médico de bem (...). Tem que saber se o que ele está fazendo faz vai ou não prejudicar alguém, se o fato foi bem apurado, se há injustiça, se o que ele diz precisa ou não ser dito (...).

Paula Vieira - Como você vê o caso dos processos movidos por fiéis e pastores da Igreja Universal e a Folha da Manhã S.A?

Geraldo Canali – E acho que é legitima a ação dos fiéis da Igreja, embora eu não esteja defendendo ninguém. Se é uma estratégia, bom, estratégias todos nós temos quando recorremos a Justiça. A verdade é que a Igreja se sentiu atingida e procurou meios para se defender. É claro que isso foi um grande golpe que a imprensa sentiu e passou falaciosamente a denunciar como um empenho de cerceamento da liberdade, o que, do meu ponto de vista, não é. A quem cabe julgar é à Justiça, e não à Imprensa. Aliás, são vários os exemplos em que a Imprensa se mete a juíza e acaba cometendo as maiores injustiças – condenando inocentes e se abstendo até de considerar aqueles que efetivamente estão prejudicando a sociedade.

Paula Vieira - A ABRAJI e alguns outros órgãos nacionais e internacionais vêem o crescimento desse tipo de ações como inibidores do jornalismo.


Geraldo Canali – Eu não acho que seja isso, não acredito que prejudique a liberdade de imprensa. A imprensa tem que ser responsável. Não pode assumir determinadas bandeiras, de acordo com a sua conveniência e realizar "massacres" abstendo-se de qualquer possível culpa. A Justiça é um canal legítimo ao qual qualquer pessoa que se sinta prejudicada pode recorrer e a imprensa possui argumentos suficientes para fazer a sua defesa. A função da imprensa é informar, pode até comentar mas tem que usar as vozes dos mais diferentes seguimentos da sociedade.


Paula Vieira – Tomando como exemplo as condições atuais da imprensa chinesa, quais as conseqüências que a repressão a liberdade de informação pode acarretar para uma sociedade em plena globalização?
Geraldo Canali – Mesmo na China, apesar de uma certa restrição, a informação consegue transitar por determinados segmentos. É claro que o ideal é que não houvesse esses impedimentos porque é evidente que isso afeta a sociedade na busca pela sua emancipação, pelo seu desenvolvimento, na luta para se livra do controle e da dominação. Mas isso também acontece nos Estados Unidos e no Brasil. O cerceamento da informação também é exercido nesses países que se dizem democráticos. Quantos acontecimentos não foram explicados ou foram muito mal explicados. O próprio 11 de Setembro permanece obscuro e isso é um cerceamento da informação. E tudo isso contribui, embora não seja determinante, para a alienação política e cidadã.

Paula Vieira – Como, ao seu ver, as empresas de comunicação posicionam-se no que tange a liberdade de imprensa?

Geraldo Canali – Elas têm um discurso que lhes convém. Também praticam cerceamentos através da forma de apresentar uma idéia e do critério de seleção de quem vai falar. Apesar do discurso “nós damos voz à oposição”, a mídia, geralmente, seleciona alguém que pode se posicionar de forma contrária, mas que, ao mesmo tempo, não diga algo que não seja tolerável. Ela direciona a opinião pública para a sua visão de mundo, conforme a sua identidade e os seus interesses.
Paula Vieira – Os jornalistas hoje se uniriam em prol de uma causa comum?
Geraldo Canali – E não sou nada otimista com relação a isso. A grande maioria dos jornalistas brasileiros na ativa só estão sobre essas condições porque têm um alinhamento com a classe patronal. A vias de regras, quem questiona a postura da grande imprensa acaba sem emprego. Houve um debate recente no país a respeito a criação do Conselho Federal de Jornalismo, que acabou sendo retratado pelos grandes veículos como uma tentativa do Presidente da República de obstrução da liberdade de imprensa. Mas, na verdade, além desse debate ser muito antigo, ele parte do interior da Federação Nacional dos Jornalistas. A discussão foi tão massacrada, que nem se quer entrou em debate no Congresso.

Oração ao Tempo

Oração ao Tempo

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo
TempoQuando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

(Caetano Veloso - Cinema Transcedental)

sábado, 26 de janeiro de 2008

Diálogo “haikainiano”

Diálogo “haikainiano”

Piada em tempo real, o paradoxo da globalização:
- Quero muito, muito, muito férias.
- Na verdade, você está em férias.


(Paula Vieira)

Sonhos (Poema dos Dez Anos)


Sonhos
(Poema dos Dez Anos)

Sonhos são versos.
Versos de vida.
Vida vivida na mente humana, que não é insana.
Porém, absurda.
Mente, que cria a vida na mente, que é realmente o sonho da gente.

(Paula Vieira)


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Disse?

Disse?


Tirei o dia para vasculhar os teus escritos.
Foi tão de repente quando me peguei lendo as tuas palavras.
Por um momento, reconheci velhos pensamentos meus naquelas linhas.
Não que você os tivesse copiado.
Pelo contrário, tudo ali era seu.
Tudo ali era meu.
Os dias, caro amigo, parecem tão curtos.
Há muito tempo que não penso mais em mim.
Há muito tempo que deixei de ser assim.
Mas um dia, um dia, eu volto lá.
Você vai ver.
Não sei se vai gostar.
Mas, sinceramente, eu espero que eu goste.
Juntar o bom do novo com o bom do velho.
Tarefa difícil.
Não moldar, sim construir.
Ninguém disse que ia ser fácil, disse?


(Paula Vieira)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.

Se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius”.



>>Esgotados os “cantores”, quer dizer, o material que tinha em mãos e sem poder baixar músicas para reproduzir no programa, ordem da direção, busquei outras alternativas.

>>Primeiro, fiz uma lista com vários nomes de músicos da nossa querida MPB, cujos materiais poderiam estar no acervo. E ai começou a loucura. Encontrei muitos dos nomes que havia escrito e outros mais. No entanto, os álbuns dos quais dispunha ou estavam em condições impróprias para reprodução em rádio, se é que você me entende, ou eram insuficientes para que eu pudesse desenvolver um texto suficientemente bom ao meu ver. Eu gostava de fazer uma espécie de retrospectiva que envolvesse a vida e a carreira do artista em questão. Lembrava da época em que estava me preparando para o vestibular. Um dos fatos que mais me deu prazer ao estudar literatura foi conhecer um pouco mais da vida do autor, saber de curiosidades, de acontecimentos marcantes e, é claro, poder relacioná-los com o período histórico em que aquela peça literária fora escrita. Esse conhecimento era para mim uma espécie de chave que me permitia “entrar” na mente do escritor e descobrir (imaginar) o que o teria levado a escrever tais orações. Pode parecer loucura, mas, de certa forma, gostava de escrever programas com o intuito de provocar tal sensação no ouvinte.

>>Sem muito sucesso, resolvi mudar de estratégia. Depois de um tempinho, uma pergunta veio a minha mente: por que não produzir um programa a partir de um álbum? Solucionado um impasse, parti em busca da solução de outro: e qual seria este álbum? Bom, pensei cá com meus botões, como se eu os tivesse, teria que ser um álbum significativo para a história da música brasileira. Não queria musicas boas apenas, queria musicas de qualidade, com conteúdo e que apresentassem algo inédito, inovador. Foi então, que “Os Afro-sambas de Baden e Vinícius” me veio à cabeça. Eu já havia feito programas a cerca desses grandes nomes da MPB, nos quais fiz breves citações a respeito da curta, mas produtiva, parceria entre os dois músicos. Ainda assim, senti que a exploração dessas produções não foi suficiente e vi nesse último programa de Dezembro uma oportunidade.

>>A parceria entre Vinícius de Moraes e Baden Powell começou em 1962, quando violonista, que tocava na boate Arpège, em Copacabana, teve um de seus shows assistido pelo Poetinha. Encantado com o jeito de Baden tocar, Vinicius convidou o jovem músico a compor algumas “musiquinhas”. Na época em questão, a parceria entre Tom Jobim e Vinícius já dava o que falar e Baden, muito entusiasmado, não hesitou aceitar o convite.

>>Os três primeiros encontros da dupla foram verdadeiros fracassos. Sempre acontecia algo e um dos dois faltava. Foi, então, que eles decidiram parar por três meses e dedicarem-se exclusivamente à música. Vinicius De Moraes, que ainda era diplomata, pediu licença ao Itamaraty, em seguida ligou para os pais do Baden Powell, avisando que o amigo iria passar alguns dias compondo em sua casa. Com apenas um violão, uma máquina de escrever e o melhor amigo de Vinicius - uma garrafa de whisky - os dois criaram clássicos que marcariam a Bossa Nova.

>>O disco“Os Afro- Sambas de Baden e Vinicius”, lançado em 1966, é o segundo feito pelos dois. A idéia por traz do álbum veio quando o poeta foi presenteado ao LP “Sambas de Roda e Candomblés da Bahia”, pelo baiano Carlos Coqueijo Costa. Impressionado com a sonoridade, Vinicius mostrou o álbum ao amigo, que, em 1962, ao visitar a Bahia para apresentar-se em um show com Silvia Teles, foi apresentado ao capoeirista Canjiquinha. Ele, por sua vez, apresentou a Baden as rodas de capoeira, é claro, e os terreiros. Fascinado, Baden Powell, ao se reencontrar com Vinicius, inicia uma série de canções sobre a cultura afro-brasileira: “os afro-sambas”.

>>Da idealização até a etapa final de gravação são vários os fatos curiosos que circundam o disco. A gravação do disco contou não só com a ajuda do produtor ROBERTO QUARTIN e das meninas do QUARTETO EM CY com também, com a ajuda de um coro misto formado por amigos dos músicos. Do “Coro da Amizade”, assim denominado carinhosamente por Vinicius, faziam parte: Eliana Sabino, filha de Fernando Sabino; Bety Faria; Tereza Drumond; namorada de Baden na época; Nelita, então esposa de Vinicius; o psiquiatra César Augusto Parga Proença e o médico Otto Gonçalves Filho. Além disso, na mesma época em que Baden Powell e Vinicius De Moraes iniciaram a composição, o violonista estava estudando canto gregoriano. E foi durante a sua pesquisa que Baden percebeu que os cantos atribuídos ao Papa Gregório I se semelhavam muito aos afros. Dessa forma, surgiu a idéia de mesclar o batuque, o “erudito” e o samba, o que gerou uma musicalidade única, em tempos em que a Bossa Nova, guiada por Marcos Valle, Dori Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime e Joyce, que críticavam as influências do Jazz norte-americano no ritmo brasileiro, sofria uma releitura.

>>“Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius” é considerado hoje, por muitos críticos, um divisor de águas na MPB. Inovador, o álbum traz uma série de elementos que misturados revelam uma fusão de musicalidades que, por sua vez, reflete o caldeirão étnico que é o Brasil. No disco, atabaques, afoxés agogôs, saxofones e pandeiros tocam lado a lado, realizando uma espécie de celebração da brasilidade. Nas próprias palavras de Vinicius: “[...] Essas antenas que Baden tem ligadas para a Bahia permitiram-lhe realizar um novo sincretismo: carioquizar, dentro do espírito do samba moderno, o candomblé afro-brasileiro, dando-lhe, ao mesmo tempo, uma dimensão mais universal [...].”.

>>No entanto, apesar de ajudar a compor uma verdadeira obra-prima, Baden Powell sempre reclamou da qualidade de gravação do álbum. Ele argumentava que a atmosfera de terreiro que o percursionista Guerra Peixe queria recriar muito ficou precária, pois não era possível, devido a tecnologia da época, capturar de modo limpo o som com um grande número de instrumentos de percussão. Além disso, o violonista dizia que não dava para se entender muito bem o que Vinicius canta em algumas faixas, uma vez que as vozes do poetinha e do coro pareciam se em bolar – o que pode ser percebido em na música “Canto de Xangô”. Nem tudo é perfeito.

>>Assim, se eu tivesse que falar de um disco, falaria do “Os Afro-sambas de Baden e Vinicius”. Pois, esse álbum repleto de singularidades é tão simples em sua complexidade, ou vice-versa, que com problemas de gravação ou sem merece, sem dúvida alguma, ser ouvido mesmo por aqueles que dizem “não curtir muito MPB”. As letras que a primeira vista podem parecer pouco profundas, se observadas com um pouco de curiosidade, dão a conhecer muito bem os ensinamentos de uma das religiões que ajudou a formar o caráter cultural brasileiro: o candomblé. E se não for pelo cunho histórico, que seja pela música em si. Os ritmos predominantemente calmos parecem mexer com o estado de espírito de quem os ouve. Além, é claro, de surpreender pela imensa harmonia resultante da mistura excêntrica entre o samba, canto afro e o gregoriano. Sem falar no leve toque de Bossa que pode ser percebido em músicas como “Tristeza e Solidão”. Por último, recomendo que quem for ouvir os afro-sambas que o faça com muita atenção, pois, dessa forma, poderá perceber a presença de cada estilo e como eles interagem entre si ao longo das oito faixas que compões o disco.


(Paula Vieira)




Obs: para quem não gosta de baixar antes de conhecer as músicas, uma alternativa é o site www.radio.uol.com.br .



sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

LUZIA

LUZIA

>>Uma dor forte na parte posterior da cabeça, foi essa a sensação que LUZIA teve quando acordou. Pelos fracos raios de luz que tentavam entrar pela janela, deviam ser quase seis horas da manhã. Ela, então, senta-se a beira da cama. A dor persiste por alguns minutos, mas, logo, a senhora de 64 anos levanta-se e vai tomar uma ducha antes de vestir o uniforme de trabalho. Ela conhecia aquela família desde que era uma mocinha. A tia JOSÉFA, que a criou, trabalhara para aquela gente desde a sua juventude até seu último dia. LUZIA parecia estar seguindo o mesmo caminho.

>>Em pouco tempo, a velha empregada já estava pronta para iniciar mais um dia de afazeres domésticos e passeios com o cachorrinho da menina HELEN, ou melhor, da Dona HELEN. A menina a qual ajudara a acobertar algumas de suas traquinagens, depois da morte da mãe, não gostava mais de ser vista como uma menina. Agora, ela era uma mulher, era a dona da casa e deveria ser tratada como tal. Um subordinado é um subordinado e deve recolher-se a sua função - dizia sempre a madame, que inventou que LUZIA, além de limpar, cozinhar, lavar e passar, deveria arrumar tempo para levar o FOFINHO para cagar, quer dizer, tomar um sol na vizinhança. HELEN sabia que a empregada, em função da idade, já não tinha o mesmo vigor de antes. As pernas doíam e LUZIA não conseguia andar 2/5 de quadra sem dar uma paradinha. Mas, mesmo assim, HELEN insistiu com a tal história do cachorro.

>>E lá ia LUZIA rumo a mais uma jornada diária. Ela esquentou o café em seu fogareiro, que mantinha em seu quarto. Enquanto toma o café, a velha empregada lembra como as coisas eram diferentes com DONA AURORA. LUZIA e a tia dividiam uma espécie de casinha de duas peças, quarto e banheiro, nos fundos da casa grande. No entanto, agora, dez anos depois, a menina virou DONA e deu à LUZIA, sem maiores explicações, um prazo de 30 dias para que arrumasse outro lugar para morar. Assim, para não perder o emprego, a empregada sujeitou-se a tal humilhação dizendo: Sim Senhora, em um mês, eu saio daqui. No fundo, LUZIA conservava uma certa esperança, ela acreditava que aquilo tudo não passava de mais um capricho de menina mimada e que a patroa acabaria caindo em si.

>>Enfim, são sete horas. LUZIA adentra a casa grande e começa a preparar o café da manhã. Suco de laranja, mamão cortado ao meio sem sementes, torradinhas, pão integral fresco, café preto passado na hora, leite, amoras, requeijão light, mel, manteiga, geléias (...), um verdadeiro “banquete-ególatra”. Solteira e sem filhos, ela nunca suportou crianças, DONA HELEN fazia questão de uma mesa farta em todas as refeições, mesmo que a única pessoa a comer fosse ela.

>>O ritual matinal da patroa estava prestes a começar quando, algo excepcional aconteceu. Ainda em seus trajes de dormir, HELEN sentou-se à mesa e pediu, com um tom arrogante, que LUZIA servisse o seu café. Quando a empregada pegou o bule, sentiu-se tonta e acabou derramando um pouco de café no chão. A “menina-dona” gritou - Velha inútil, limpe já esta sujeira! – e saiu da sala de jantar. LUZIA, quase chorando, abaixou-se para limpar o tapete, e, quando estava prestes a se levantar, bateu sua nuca na mesa de mogno.

>>A empregada desmaiou e, quando acordou e olhou ao seu redor, não reconheceu nenhum dos traços da sala na qual se encontrava. Outro fato curioso é que todos, agora, chamavam-na agora de HELEN. Sem entender, LUZIA pediu que trouxessem um espelho. Para sua surpresa, a imagem que viu refletida não se parecia em nada com a de LUZIA, mas sim com a dona da casa. Assustada e confusa a mulher começou a chorar. Um médico aproximou-se, pedindo que ela tivesse calma. O doutor, então, tentou explicar a ela que não havia necessidade para pânico, que tudo se passara de, apenas, um sonho provocado pelo incidente. Com uma cara de espanto, ela pergunta sobre qual avia sido suposto incidente. Ele começa a explicar:

>>- Você está aqui há alguns dias. Sofreu um desmaio, quando recebeu a notícia da morte de LUZIA, e bateu a cabeça na quina da mesa de centro de sua sala.

>>A expressão facial de HELEN demonstrava que ela desconhecia o conteúdo da conversa. O médico, diante da situação, decidiu prosseguir a explicação mostrando à paciente as principais manchetes dos jornais de uma semana atrás. Todas falavam da morte de uma empregada doméstica de 64 anos que foi baleada em um assalto a um ônibus, no final da tarde. Nesse momento, a menina começa a recobrar a memória e recorda que LUZIA estava naquele ônibus por conta do ultimato que ela dera para a empregada arrumar outro lugar para morar. Sem saber direito o que fazer, a HELEN pede que o médico traga um ferro de passar roupa. E, com o ferro nas mãos, passa a caminhar de um lado para o outro do quarto da casa de repouso, vulgo hospício, arrastando o ferro e dizendo:

>>- Vamos FOFINHO, a menina não vai gostar nada, nada se eu me atrasar para pôr a mesa do café da tarde.

(Paula Vieira)