Vai um papel-higiênico ai?
>>Certo dia, conversando com um amigo, peguei-me pensando nas convenções simbólicas criadas pelos homens. Ele afirmava que alguém que usa um terno não poderia ser visto como um ser que pensa no coletivo. Eu que, na ocasião, encontrava-me de terno e, sendo uma pessoa adepta de idéias um tanto quanto utópicas, questionei-o acerca do porquê de tal afirmação. Ele, simplesmente, respondeu-me com tom de obviedade: porque isso seria uma hipocrisia. Foi então, que comecei a retomar, em minha mente, pensamentos sobre as convenções humanas a respeito das imagens e o que elas representam.
>>O que torna uma pessoa hipócrita? Ter uma atitude que não condiga com aquilo que ela “prega” ao outros como certo. Essa, sem dúvida, seria a resposta dada por mim. Mas, o que há, então, de, obviamente, hipócrita em usar ou não uma roupa? Bom, partindo do princípio de que todos somos livres para vestirmos o que bem entendermos, desde que as ditas roupas não tragam mensagens que possam ofender a alguém, creio que não há nada de hipócrita em fazer ou não uso de determinada vestimenta. Considero, ainda, algo ilógico ligar o conceito de hipocrisia ao uso de um pedaço de pano, uma vez que, independentemente da roupa que vistamos ou, até mesmo, do fato de estarmos vestidos ou nus, os nossos pensamentos continuarão “encrostados” em nossas mentes. Ou, será que alguém tem seus pensamentos tomados de si, levados embora quando se despe para, por exemplo, tomar um banho? Acredito que não, pois do contrário mudaríamos de idéias a cada estação do ano, tendo em vista que os casacos e mantas do inverno, raramente, são usados no verão. Hipocrisia minha, ou de qualquer um seria “gritar aos quatro ventos” que não é correto vestir-se com um terno, ou qualquer outra roupa, e estar vestindo um. Não haveria, assim, uma ligação coerente entre a fala e a atitude, o que se consagraria como um ato de hipocrisia propriamente dito.
>>Mas então, o que, de fato, levaria as pessoas, como foi o caso do meu amigo, a dar como obvia tal inverdade? Diria que é exatamente ai que entra a questão das convenções simbólicas. Como Thomas Luckmann e Peter Berger já haviam colocado muito bem no livro “Fundamentos do Conhecimento da Vida Cotidiana”, o ser humano tende a rotular tudo o que vê pela frente, afim de poupar esforços , ou seja, generalizando os fatos, ele não corre o risco de ter der refletir e achar um sentido para toda a novidade o que vê. E, assim, surgem os conceitos, por pura preguiça de raciocinar.
>>Entretanto, tentar compreender a simbologia que há por trás de uma veste não mostra-se algo que possa ser, facilmente, feito, muito embora tentamos fazer isso diariamente. Uma peça de roupa é um fato social, que, muitas vezes, serviu como referência para a identificação de períodos históricos e identidades culturais, como, por exemplo, respectivamente, a idade média e os monges. Contudo, não nos deixemos levar pela nossa preguiça, que tende a nos induzir ao uso indiscriminado e obsoleto dos rótulos. Nem todo o conceito é aplicável a tudo e a todos. E tentar aplicá-los a tudo o que se vê é fazer um julgamento equivocado, preconceituoso.
>>Sendo assim, ainda que seja inerente ao ser humano criar convenções simbólicas para “facilitar” a compreensão do mundo e de si próprio, não podemos esquecer que, como já diz o nome, essas são convenções e como tal são mutáveis – o feio de hoje pode ser o bonito de amanhã. Rótulos são muito bons para serem usados em embalagens de papeis-higiênicos, não em seres humanos. Portanto, deixemos os rótulos por conta das indústrias e de seus produtos. Eu, você, todos somos livres para vestirmos o que quisermos, dentre, é claro, aquilo que está ao nosso acesso; e construir, dessa maneira, a nossa própria simbologia.
(Paula Vieira)
(Paula Vieira)
5 comentários:
adorei teu texto!!!
=***
muito verdade, paulinha.
a hipocrisia já consiste na própria rotulação, uma vez que NINGUÉM segue 100% a vida inteira todos esses dogmas que a sociedade impõe. além de que, ainda não conheci duas pessoas que sejam totalmente iguais, fisicamente e em pensamento. quem vai dizer que o que serve pra um, serve pro outro também?
sejamos felizes da forma como somos!
beijos
Oi moça! Adorei seu blog! ^^
Tava pensando em voltar a postar no meu ou criar um novo \O/
Bjsss!!!
PaulinhaAA!!
Nossa! minha colega de português ta arrasando, heim?! Muito bom mesmo, sem dúvida os rótulos degradem a sociedade e pensar que eles não passam de preguiça de raciocinar, certamente ja foram razão de muito atraso em nosso meio.
Tudo de bom querida! teus textos estão ótimos, nunca pare de expor tuas idéias e agora, que já tenho onde olhá-las, vou estar sempre por aqui!
beijão!!
Elias
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